Andrew White
Olá, esperados leitores! Hoje falarei/digitarei sobre “A Culpa é das Estrelas”, levem como crítica e indicação literária. Eu, particularmente, gostei muito do livro (admito, eu super hiper mega ultra máster bláster gostei do livro!).
Então, primeiramente, deixarei aqui o link da sinopse: https://www.aculpaedasestrelas.com/ . E gostaria também de disponibilizar uma citação de Hazel Grace que você encontra atrás do livro: “Não sou formada em matemática, mas sei de uma coisa: existe uma quantidade infinita de números entre 0 e 1. Tem o 0,1 e o 0,12 e o 0,112 e uma infinidade de outros. Obviamente, existe um conjunto ainda maior entre o 0 e o 2, ou entre o 0 e o 1 milhão. Alguns infinitos são maiores que outros… Há dias, muitos deles, em que fico zangada com o tamanho do meu conjunto ilimitado. Eu queria mais números do que provavelmente vou ter...” Esta citação só poderia ser escrita por um “gênio”, nela, Hazel (ou John Green, como preferir; autor do best-seller) explica a essência de um “infinito menor que outro”, Hazel Grace certamente vive um infinito com Augustos Waters, que subtende-se como momentos inesquecíveis, um “mundo” inquebrável desses dois personagens, no entanto, esse mundo inabalável tem um desfecho (quem ainda vai ler, não se preocupe, não darei spoiler), por fim, é como se houvesse um infinito, só que num espaço de tempo menor que outros, como Hazel mesmo específica: “existe uma quantidade infinita de números entre 0 e 1. Tem o 0,1 e o 0,12 e o 0,112 e uma infinidade de outros. Obviamente, existe um conjunto ainda maior entre o 0 e o 2, ou entre o 0 e o 1 milhão. Alguns infinitos são maiores que outros…” Isto nos remete ao fato de que um infinito tem todo direito de ser maior que outro (uma filosofia paradoxal interessante).
Vamos lá!... Hazel Grace é uma garota meiga e categórica de 16 anos diagnosticada com câncer de tireoide com metástases nos pulmões, mora em Indianópolis com os pais – a mãe se aplica excepcionalmente de corpo e alma a filha – e vale ressaltar que a adolescente é absurdamente fanática por uma criação literária, chamada: “Uma Aflição Imperial”, sendo essa, criação de Peter Van Houten, o qual, “inicialmente”, Grace considera seu terceiro melhor amigo (depois de seus pais).
Quando sua mãe, Sra. Lancaster, decide que Hazel está em depressão, o que não se mostra um completo absurdo, a garota é forçada a frequentar uma reunião entre pessoas com os mesmos problemas notórios – o câncer. A menina, já farta dessa terapia em grupo, vai ao mesmo com enorme desanimo, porém, esse dia acaba por surpreendê-la, pois ao chegar no “coração literal de Jesus – Igreja”, onde ocorrem as fatigantes conversações, ela nota um olhar novo e terminante, olhos tão azuis, que segundo ela, era quase possível enxergar através; nesse dia a adolescente solitária e quase ausente de amigos, conhece o garoto que faria seu mundo girar mais depressa, Augustos Waters, um adolescente bonito, charmoso e extremamente convencido, que tem a excêntrica mania de pôr cigarros na boca, mas nunca acendê-los (“é uma metáfora, ele coloca ‘o que mata’ entre os dentes, mas não proporciona o fogo, para que não possa matar”), e não esquecendo de explicitar que o próprio possui um medo exasperante de ser esquecido.
A partir daí, o enredo limita-se (não sei se devo utilizar “limitar” para definir o contexto, mas enfim) a um “infinito” amor recíproco – um infinito não tão grande, mas de todo marcante – dentro dessa narrativa em 1º pessoa, Grace (Green) nos transcreve uma história de essência leve, uma escrita simples, juvenil e envolvente, dando uma sensação de conforto afável imediato, e com o desenrolar notamos que a criação de John não é o clichê patético de sempre, mas uma criação que busca caminhos que delineiam uma estrutura única e fora dos padrões, o que certamente me fez admirar ainda mais a obra; como por exemplo, tem uma cena em que Gus indaga sobre a história de Grace, ela, de prontidão, responde sobre os fatos de seu câncer, mas o Waters a repreende e diz algo parecido com isto: “Não perguntei do seu câncer, perguntei de você”, o que me fez lembrar que na maioria das narrativas sobre indivíduos com doenças terminais, os autores dão ênfase apenas aos fatos do câncer e acabam por esquecer o personagem em si, o que, na minha opinião, é um tanto errôneo, pois todos possuem um passado, ela tem ou tinha um mundo do qual não era obstruído pelo câncer ou qualquer outra doença, concordam?
Continuando... A transcrição de Hazel vai lhe surpreendendo, como quando ela, sua mãe e Gus viajam para Holanda, para encontrar Peter Van Houten (numa tentativa insistente de saber qual o destino dos personagens de “Uma Aflição Imperial”, um deles sendo Sísifo, o hamster). É lá que ocorre a maior parte dos acontecimentos aberrantes, e fortalece o amor dos jovens em questão.
Por fim, concluo, John Green nos mostrou um mundo novo de um assunto velho deveras tratado, que me fez sorrir, rir, chorar, irritar e enlouquecer, e agora pronuncio em unissom com Hazel Grace e Gus que “Me apaixonei do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora para outra.”... E deixo um ultimo suspiro da história: “Alguns infinitos são maiores que outros. Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados, e eu estou muito grata por isso.”... Pra mim O.K., e pra vocês, O.K?
“O importante não é ter uma infinidade de dias, é acreditar que seus dias contados sejam infinitos” - feita por mim.
Prólogo: Introdução
O que fazer quando seus olhos se abrem e mesmo assim permanecem sob a escuridão soturna?... Andrew White não tinha a resposta e, por este motivo, insanamente, entrou em disparada, fora à única alternativa encontrada pelo seu cérebro. Mas sua corrida pelo âmbito obscuro lhe revelou apenas uma certeza: “não havia descrição exata do mal que aquilo lhe causava”, seu sentimento parecia-se com medo, mas não apenas isso... Era um medo profundo e excêntrico, como se seu interior estivesse desnudo, feito um diário repleto de segredos que se abre e, alguém o lê por completo... O que é mais aterrador do que sentir seus segredos sendo revelados a outro ser?... Estacou a caminhada, pois a corrida não o levaria a nada. Desabou sobre o chão infinitamente negro, se recolheu vagarosamente, feito um feto, e quieto ele permaneceu; traumatizado.
Quando o sinal do intervalo sibilou alto no interior do enorme colégio Legião, o garoto babão que dormia sobre a carteira, despertou assustado, mas também aliviado ao notar que o desespero de outrora não passava de um pesadelo bobo.
Já estava farto das aulas de história e, acabava adormecendo toda vez; porém, para alegria de todos os alunos era sexta-feira.
Guardou seus cadernos e livros num desleixo fatigante, fechou o zíper da mochila e, antes que se levantasse da cadeira, um “hey” falado numa voz doce o fez enrijecer ate mesmo a respiração.
- Andrew, não é? - tornou a falar, a garota de madeixa rosada que se sentava atrás dele nas aulas de história.
- Érr... – ainda extasiado, Andrew impediu a saída de mais palavras.
- Seu nome é Andrew, estou certa? – replicou num sorriso simpático.
- Sim! – fitou-a de ombros e sorriu timidamente, mas logo fechou os olhos e voltou a fitar sua frente, com receio de que sua visão cruzasse os afáveis olhos de mel da adolescente. – mas por quê? – indagou de prontidão.
- por que eu o amo desde o instante em que o vi pela primeira vez, não sei ao certo o motivo, mas sinto que deveria estar mais próxima de você, sentir o calor de seus abraços e beija-lo quantas vezes puder; eu sei que juntos seriamos completos. Não suporto te olhar nos olhos sem que meu coração palpite num descompasso alarmante e minha voz fraqueje ridiculamente!... Por favor, namore comigo! supôs o garoto, torcendo para que ela dissesse tal absurdo, no entanto, era o que ele queria dizer desde o momento em que a admirou pela primeira vez.
- Bem, me senti na obrigação de dizer que seus cadarços estão...
Antes que a garota terminasse a frase, o jovem suspirou desanimado e esboçou uma expressão amofinada, a menina interrompeu-se e o garoto logo se queixou:
- Não é a primeira vez que ele faz isso! Mas obrigado por avisar, Lucy – olhou em direção à porta da sala de aula e avistou um robusto garoto caucasiano de cabelos loiros, Josh Turner, que ao notar o olhar certeiro e ressentido, sorriu maliciosamente, denunciando o próprio feito.
Andrew olhou para seus tênis e viu o que já era de se esperar, os cadarços de ambos apresentavam-se entrelaçados em confusos nós, um artifício ínfimo usado com frequência por Josh, tido como um dos garotos mais problemáticos do ensino médio, se não era o mais o problemático deles.
Lucy se levantou, acomodou a mochila sobre as costas e logo sibilou direta:
- Não há de que, mas da próxima vez, Andrew... – fez uma pequena pausa para ajeitar os cabelos negros reluzentes abaixo dos ombros, e tirar de modo furtivo a mecha rosa da frente do olho direito, e logo tornou a advertir: – Acho melhor que não durma mais nas aulas de história, Josh é um grosseiro problemático e, se continuar dando sopa, ele não vai te deixar em paz. Bem, espero que se cuide... Ate mais, tenho que ir agora! – se despediu num sorriso aprazível adornado de um leve tom de preocupação.
- Ah! Obrigado por se preocupar, Lucy, ate mais... – agradeceu o White, encantado com as palavras atenciosas da garota. – Porém receio que meus problemas sejam bem maiores que isto – balbuciou baixo para si mesmo.
Após desfazer os nós e notar que Lucy já havia saído da sala, o menino se levantou da cadeira, ajeitou a única alça da mochila atravessada sobre o peito, contraiu as mandíbulas e cerrou os punhos; algo de muito terrível fervilhava dentro de sua mente.
- Andrew, vai sair para o intervalo ou continuar perdendo tempo?! – gritou um garoto rechonchudo, cabelos escorridos acaju, pele cor de oliva e olhos viçosamente castanhos. Era seu primo.
- Matt?! – sibilou caminhando ate ele.
- Você é muito lento, é sempre o último a sair da sala...! E olha que quem está acima do peso sou eu! – se divertiu Matt Hall enquanto afagava os esvoaçantes cabelos de Andrew, num jesto descontraído de cumprimentar.
- Exatamente por estar acima do peso que você não vê a hora de ir para o intervalo almoçar.
- Ah! Chega de conversa e vamos logo! – encerrou a discussão, compreendendo a derrota.
oOo
A paisagem que se estendia pelos pátios e corredores do grande colégio, intimidava o White nos horários de almoço, já que seu antigo âmbito de estudo se mostrava muito menor que toda aquela colossal estrutura escolar; ver toda aquela massa formigante de alunos, caminhando com enormes maquetes de isopor; folheando livros enquanto ponderava novas notificações no celular; anunciando o nome de suas chapas do grêmio estudantil em megafones e ate mesmo se aventurando por obstáculos em cima de skates imparáveis, o fazia ficar em extremo estado de alerta.
Depois de atravessar os grandes, porém, atulhados corredores, os dois jovens foram à praça de alimentações e, longe de todo aquele estrépito juvenil, o cheiro forte de creme para acne e o repulsivo odor de suor do time de futebol, o adolescente reflexivo tinha uma visão privilegiada lá de dentro, era possível visualizar toda a multidão do lado de fora; já sentado sobre uma cadeira à beira de uma das muitas pequenas mesas circulares da praça ao ar livre, Andrew se perdia em seus pensamentos, enquanto Matt buscava o almoço de ambos, ele vislumbrava todos aqueles adolescentes vestidos com o mesmo traje – os garotos do colégio enroupavam com camisas e calças sociais, nas cores branca e preta, sapatos dress shoes e um sofisticado colete cinza com o logo da escola no peito direito (um primoroso “L” allegro em dourado). Já as garotas trajavam-se com uma saia rodada preta acima dos joelhos, uma camisa branca de mangas curtas, polainas acima dos sapatos sociais e um lenço vermelho chamativo em torno do pescoço, que findava numa sutil fita preta que levava um requintado “L” em dourado, sobrando um pouco de pano sob, feito uma mini gravata.
- E então, Andrew, alguma novidade? – perguntou Matt na tentativa de descontrair; pondo duas bandejas com sanduíches e refrigerantes sobre a mesa.
- Bem... Josh amarrou os cadarços dos meus tênis um noutro, como na semana passada... - respondeu baixo, apanhando um sanduíche de peito de peru com molho tártaro e uma salada modesta de picles, tomate e alface.
- Você deveria dar um fim nesse garoto. – soou sério.
- O que quer dizer com isso?... Eu o odeio, mas, não quero mata-lo! – arregalando os olhos.
- Não foi isso que eu quis dizer, só acho que deveria mostrar quem é que manda. – replicou sorridente, enquanto abria saquinhos de sal e os despejava nos sanduíches. – Por que eles colocam tão pouco sal nesses lanches? E olha que eu pedi para caprichar!
- Você deveria parar de consumir tanto sal. Eu realmente não entendo essa sua obsessão.
- Se as comidas tivessem mais sal, eu não precisaria ficar pondo! – retrucou já furioso.
Após almoçarem, os dois primos tiveram mais duas aulas; para Andrew, química e física. Depois foram dispensados.
oOo
Na volta para casa, Matt fora na frente de bicicleta, dizendo que precisava estudar e fazer trabalhos, e não tinha tempo para acompanhar Andrew ate em casa e, ainda completou, dizendo de modo abrupto: “Aliás, você sabe muito bem o caminho, vá sozinho, não é mais necessário que eu vá com você, como quando havia acabado de se mudar; você tem 16 anos, sabe se virar!”. Andrew já se acostumara com isso, o primo era bipolar diagnosticado, alterava o humor repentinamente, e de vez enquanto despejava sua raiva por meio de palavras ofensivas sem o menor motivo aparente.
Durante a caminhada do jovem White pelas ruas solitárias de Santo André – localizadas na região metropolitana de São Paulo – ele matutava sobre o pesadelo que tivera na aula de história, nunca sentira nada parecido, uma espécie de ser, um alguém, havia invadido sua mente e vasculhado cada centímetro de seus segredos, essa era a sensação. Abuso.
Sem notar de primeira, os passos do garoto reflexivo tornavam-se cada vez mais pesarosos, seus músculos pareciam restringidos e de repente ele sentiu a necessidade voraz de interromper a caminhada.
- O que está havendo comigo? – indagou para si.
Ajoelhou-se vagarosamente, pousou as mãos no gramado da calçada e sentiu o coração palpitar descompassadamente, a respiração arfante denunciava o desespero.
- Não pode ser... É a mesma sensação que tive na escola, durante o pesadelo!
Uma névoa sinistra se apresentou subitamente naquele mesmo âmbito, tomando sua visão, ela ficava ora a ora mais densa e opaca, no entanto, o mais aterrorizante ainda estava por vir.
- Quem é você ou o que você é?! – berrou ao nada em meio tremeliques.
- Você é necessário, Andrew White... – ressoou uma voz pacífica, autoritária e retumbante; o surpreendendo de súbito.
O garoto estupefato, não movia nem mesmo um único músculo, permaneceu assim por alguns segundos, ate que suas pupilas, hesitantes, dançaram inquietas, pois a voz parecia ecoar dentro de sua cabeça, como se falasse por meio de seus pensamentos.
- Necessitamos de você, jovem White – replicou a voz numa naturalidade perturbadora.
O garoto se levantou com dificuldade e iniciou uma corrida igualmente insana a do pesadelo. Os olhos se mostravam marejados de terror. Transcendental.
- White, cedo ou tarde terá de encarar os fatos, sugiro que seja breve... Não temos muito tempo, mas por ora, compreendo seu desespero. Vá, mas não se esqueça do que ocorreu aqui, suas escolhas moldarão o futuro. Decida-se e contate-me! O desfecho é apenas o reflexo do princípio...
O adolescente libertou-se da névoa enquanto corria, porém, seu alvoroço o fez tropeçar, esparramando no chão; permaneceu estirado durante longos minutos, sem forças. Levantou-se com a franja sobre os olhos, ajeitou-a de lado e sem muita concomitância no ato, seus olhos dirigiram a visão a sua retaguarda, revolvendo-se para ponderar se a névoa continuava ali... Mas por incrível que pareça, ela havia se extirpado por completo, não havia sinal de névoa, apenas um dia ensolarado e pássaros a cantarolar.
- O que foi isso? – perguntou perplexo.
Tudo lhe parecia irreal demais, e então notou que todas aquelas coisas só podiam ser uma amedrontadora ilusão e nada mais. Mas ainda restavam duas hipóteses: ou ele estava ficando louco, ou alguma entidade sobre-humana estava brincando com sua mente. Ele temia ambas, mas preferiu eliminar todo tipo de pensamento, pois já tinha muito com o que se preocupar.
oOo
Chegou em casa e tirou uma soneca merecida.
Capitulo 1:
Quando a soneca do jovem White chegou ao fim, o sol estava prestes a se pôr, colorindo o céu de uma cor cenoura remanescente, que iluminava pouco o quarto.
Andrew desceu as escadas, atravessou a sala e adentrou na cozinha, onde sua mãe, Elizabeth White, tirava uma fornada de biscoitos de chocolate com uvas passa. Matou a sede num copo d’água, acomodou-se de costas no balcão de mármore e desdenhou com os olhos a bandeja de biscoitos que a mãe pusera sobre a mesa com luvas térmicas.
- Zoe, venha comer, já assei os biscoitos! – advertiu Elizabeth, numa voz categórica que levava uma doçura afável.
A Sra. White se apresentava como uma mulher franzina de pele branca, cabelos curtos repicados de cor preta e olhos pretos que transpareciam um sentimento de compaixão e acolhimento.
Da sala, uma garotinha de cabelos longos e pele branca, vinha correndo em zig-zag, trazendo nas mãos um pequeno hamster fêmea de cor branca com manchas marrom claro.
- Uhuul! Biscoitos!... Mamãe, a Wendy pode comer um? – indagou estridente, e num ato sôfrego estendeu a hamster para Elizabeth; com os olhos castanho claro, feito os cabelos, ela fixava o olhar emocional nos olhos da mãe. Investindo na habilidade persuasiva que toda criança de seis anos de idade tem.
- Mas é claro que não, minha filha, você já está farta de saber disso – respondeu num sorriso ameno, afagando os macios cabelos de Zoe. – Vamos, coloque-a na gaiola e volte para comer, fiz chocolate quente com canela, daquele que você gosta! – a garotinha o fez resmungando.
Andrew virou-se e caminhou ate a escada sem dizer nada, mas antes que subisse o primeiro degrau, sua mãe o interrompeu, indagando de esperado:
- Filho... Não vai tomar café da tarde?
- Esses biscoitos... Por que os fez? – perguntou numa seriedade incomum, de olhos marejados.
- Porque você e sua irmã adoram, oras.
- Não gosto mais! Me faz lembrar dele e daquele dia...! Sabe que eu não suporto mais o cheiro desses malditos biscoitos! – gritou em meio as teimosas lágrimas que desenhavam caminhos descendentes em seu rosto franzido.
- Andrew, você não pode continuar assim! Se afundar nessas memórias e ressentimentos não está lhe fazendo nada bem... Eu quero te resgatar dessa dor profunda, é por isso que temos uns aos outros. Eu e sua irmã podemos te ajudar a suportar tudo isso – dizia ela num tom titubeante, como se a garganta falhasse, prestes a desmoronar em prantos. – acredite, não é fácil para nenhum de nós; mas não enxergo mais o brilho nos teus olhos, nem o ânimo contagiante de antes e,...
- Cale a boca, pelo amor de Deus, não fale mais nada! – berrou, espreitando o punho contra o corrimão. – será que não entende?! Você não sabe o que eu sinto, aliás, deveria saber... Meu pai era meu melhor amigo, fazia parte de meus dias, faz parte de minhas lembranças e, hoje não é nem mesmo meu presente, nem nunca será meu futuro. Sabe o quão perturbador é tudo isso? – virou de costas para esconder as lágrimas e a feição tristonha. – É saber o que é felicidade e ter ela todos os dias, e assim de repente, te tiram ela, arrancam uma parte sua; é como morrer, só que você continua vivendo e lembrando todos os dias que está morto!
- E eu e sua irmã, não conta? Eu vivo por vocês. Seu pai morreu, eu sei muito bem disso, e dói todos os dias; mas por vocês eu vivo, Andrew, você tem que entender...
- É isso, eu não entendo! Agora me deixe em paz – disse subindo as escadas.
- Saiba que, você não perdeu sua vida, perdeu uma parte dela. Se perdesse todo o resto, saberia como é viver na escuridão... Perceberia o quão egoísta está sendo...! E, filho, te amo.
oOo
O adolescente entrou no quarto, abriu a porta de vidro que dava para sua sacada e empurrou a cortina azul, acomodou o antebraço sobre a balaustrada e ficou a vislumbrar a despedida do sol poente, dando vez à noite, as estrelas e também a belíssima lua crescente.
Uma lágrima brotou nos olhos do garoto, mas ele logo limpou, no entanto, permaneceu a esboçar consternação na face... O céu sempre causava esse efeito sobre ele, pois quando mais novo – mais especificamente com seus dez anos de idade – seus pais o levava num monte perto de casa, ainda quando se instalavam numa casa de campo, para acampar e observar o céu desde o pôr do sol ate o ápice do brilho das majestosas estrelas.
Muita das vezes, nos tradicionais acampamentos, seu pai mantinha-se acordado por mais tempo, junto dele – enquanto Elizabeth dormia – tendo conversas intermináveis sobre qualquer assunto que fosse, principalmente sobre a constelação de Sagitário, a qual seu pai, Henry Baker White, era apaixonado, sempre ressaltava algo sobre a mesma, de voz viçosa, como: “A constelação de Sagitário se localiza no centro da nossa galáxia, como um guardião Centauro da Via-Láctea; é admirável!”, e certa vez acrescentou um questionamento, num ar reflexivo: “Fico imaginando... Será que vivem outras formas de vida inteligente dentro desta galáxia imensa?” Andrew não costumava responder às questões, ou se limitava a assentir com a cabeça, pois sempre teve a visão de que o pai era a pessoa mais sábia do mundo, e se o “sábio” não sabia a resposta, quem era Andrew para saber? No entanto, apreciava cada palavra que fugia da boca do pai, como a importante lição de um velho monge... E essa fora a ultima vez que Andrew observara as estrelas junto de seu pai, pois se mudaram da antiga casa de campo, porque Elizabeth estava grávida de Zoe e teria melhores condições vivendo na nova moradia, sendo ela mais próxima da metrópole, onde evidentemente havia mais recursos.
Foram feito planos para que voltassem ao velho monte perto da casa de campo, para vislumbrarem o céu, como sempre faziam, porém, nunca houve tempo o suficiente e, os planos foram passados para frente, ate que... Henry White veio a falecer, e a constelação de Sagitário nunca mais se mostraria a mesma.
Com as lembranças ainda pairando sobre a mente, o White foi ate o interruptor, ligou a luz, pois a escuridão envolvia seu quarto de modo taciturno. Tomou um rápido banho gelado para refrescar, e acabou por ficar apenas vestindo uma cueca box preta, devido ao calor que fazia naquela noite.
Dirigiu-se ate o espelho que se encontrava colado na parede e ficou observando a si próprio, numa tentativa fútil de reconhecimento... De frente para o objeto refletor ele via um garoto magro, mas de músculos bem definidos, cabelos negros (como o interior nebuloso de uma caverna solitária) que caia sobre a testa e cobria-lhe o pescoço e as orelhas, quase a ponto de enegrecer sua visão com as mechas impertinentes.
Ele tentava ver alguma expressão nos próprios olhos verde esmeralda, a procura da alma que se contorcia em seu interior volátil. Naqueles olhos ele via um passado, um fantasma pretérito, e no que se tornou... Mas ainda tinha dúvida do que se tornaria; quase como se tivesse medo do futuro, medo de viver e enfrentar os fatos do mundo.
O sono começou a pesar, o que também era um sintoma da depressão. Deitou-se após desligar a luz e dormiu após três minutos.
oOo
“Lute, lute, lute...!” ressoou uma voz fraca na mente irrequieta do jovem sonolento, mas em vez de espantar-se, ignorou e permaneceu deitado na cama. A porta rangeu que nem um gritinho agudo seguido de um berro enlouquecedor:
- ANDREW, ACORDA! – exigiu Zoe, batendo palmas. – mamãe disse que é para você acordar, pois já é quase a hora do almoço. E sem reclamar, viu?
- Pare de atazanar a vida do seu irmão, Zoe! – ouviu-se a voz de Elizabeth vinda dos corredores. – Eu não disse nada disso!
- Ah, droga, ela ouviu...! – murmurou a garotinha de olhos acastanhados.
- Zoe, me deixe em paz – falou o White de voz sonolenta, pondo o travesseiro sobre a cabeça, abafando as palavras.
- Mas Andrew... Eu só queria companhia, sabe, a Wendy é uma ótima amiga, mas eu faço perguntas e ela nunca responde.
- É o esperado de uma hamster.
O adolescente tentou dormir novamente, mas não o conseguiu fazer, e a luz do sol que entrava através das cortinas revolventes o fez levantar. Escovou os dentes, tomou banho e vestiu uma bermuda jeans, acompanhada por uma camiseta preta estampada com o símbolo do Heavy Metal e uma munhequeira tecida com o logo de uma animação japonesa – anime.
Foi ate a sala, desmoronou num puff de couro falso e ficou ali por algum tempo, mexendo no celular, ate que sua mãe o chamou para almoçar, mas dessa vez aceitou o chamado, pois estava morrendo de fome e, aliás, não eram biscoitos de chocolate com uvas passa.
- Maninho, já estou pronta! – exclamou Zoe durante um rodopio que visava mostrar o pequeno vestido rosa envolvendo-a, que por sinal, combinava com a tiara roxa brilhante, parecendo purpurina nos cabelos castanhos. – agora já podemos dar um passeio no parquinho.
- A mamãe já não disse para parar de me atazanar?
- Na verdade, eu disse a ela que você, filho, poderia leva-la para um passeio na praça. Sabe, vocês precisam respirar ar puro.
- Argh...! Mãe, por que não a leva você? – indagou de rosto contraído, mas antes de ouvir uma resposta, ele mesmo prosseguiu. – Aliás, não, deixa que eu levo sim; preciso dar um tempo dessa casa e da atmosfera depressiva que ela exala – tudo num tom amargurado.
- Tenho muita coisa para fazer e... Vocês precisam de um pouco de sol, acho bom que vão e tomem um sorvete.
A Sra. White pôs sobre a mesa uma travessa de vidro contendo cupim ao molho madeira com Champignon, depois batatas fritas, arroz, feijão, uma salada composta por alface, cubinhos de palmito, tomates cereja e rodelas de cebola roxa. E como bebidas, coca-cola e suco natural de laranja.
- Fiz bastante batata frita, sei que vocês adoram – anunciou Elizabeth, sorridente.
- Agora que falou fiquei extremamente feliz – ironizou Andrew.
Comeram os três num silencio tão profundo, que o simples gotejar da água que fugia da torneira, profanava a plenitude do recinto, tão notório em sua perturbação, que Elizabeth levantou-se objetivamente ate a pia para fazer parar as gotas.
oOo
Perpassou uma hora após o almoço – eram exatamente duas da tarde – Andrew pegou o celular, chamou Zoe e foram caminhando à praça. Ao chegar, o White sentou em um banco de madeira mal envernizado em meio aquele cenário cheio de árvores e um gramado verde vivo que dava de frente para um playground colorido de cores vivas. Zoe correu ate os brinquedos e acenou de lá para Andrew, o adolescente sorriu, sincero. Empunhou o celular e se conectou com a rede; logo depois de acessar o facebook, o celular sibilou em seguida, deixando explícito que havia recebido uma mensagem recente.
- Aposto que é o Matt me pedindo favores...! – pronunciou a frase em voz alta, e notou que uma figura ao seu lado direito o olhara após a pronuncia, mas o garoto de olhos verdes reluzentes nem fez o favor de fita-la e continuou vidrado no pequeno aparelho eletrônico.
Deslizou o dedo sobre a caixa de mensagens e viu a pessoa que lhe enviara as tais, na pequena imagem que aparecia ao lado do recado... Aqueles olhos cor de mel, desenhados como com pincéis orientais, a boca belamente delicada, a pele branca e inexoravelmente macia, ainda mais, os cabelos negros reluzentes numa plenitude hipnotizante quebrada apenas pela mecha rosa que adicionava um toque excêntrico e atraente. Sim, era ela, Lucy Lewis, como dizia o título da caixa de mensagens.
Além do fato de Lucy apresentar-se com uma beleza exímia e que arrebatava o coração de todos os garotos da escola, havia algo a mais para que Andrew gostasse tanto dela, algo de especial/incomum, um fato que fazia dela uma garota que fugia dos padrões; no entanto, além disso, o fato que contribuía para a maior porcentagem, era de que o pai do jovem White havia falecido e o garoto se punha em total declínio psicológico, sendo assim, como qualquer outro humano desolado, o adolescente reflexivo procurou um “sentido”, um fundamente que o fizesse sonhar... E este “sonho”, era de longe ter Lucy nas mãos e seus lábios nos dela, numa infinita representação de seu amor inquebrável.
Depois de uns quatro segundos fitando as palavras da Lewis, que diziam:
“Olá, Andrew! Quero saber se pode me ajudar, a prof marcou uma prova pra semana que vem, mas não me lembro do dia em que será dada... pode me informar?”
O mais rápido que pôde, escreveu, desenrolando uma conversa:
“Ah, sim! Então, pelo que eu me eu lembre ela pretendia passar a prova quarta-feira. Espero que tenha ajudado! :-)
Entendi... Mas bem que ela poderia deixar para sexta-feira, não acha?!
Concordo, facilitaria muito... Cá entre nós, na minha opinião ela nem passava prova alguma, sempre tive a impressão de que aquela professora sofria de algum distúrbio mental. x_x rs’
Hahaha!... Aposto que ela viajou numa máquina do tempo maluca e foi afetada pela radiação, isso explicaria o fato dela saber tanto sobre História e ao mesmo tempo ser tão insensata; mataria dois coelhos numa cajadada só! :-p
Cômico! kkkkkkkkk’
Bem, tenho que ir, ate algum dia!”
Andrew estava tão feliz por estar digitando com ela, que ao ler a ultima frase sentiu sua energia esvair-se – percebeu um movimento brusco da figura ao lado dele, mas mesmo assim, mais uma vez não fez o favor de ponderar – e então pensou “Por que não a conto sobre o que sinto por ela, afinal, quando ela voltará a falar comigo?... Devo fazer isso certamente” decidiu, mas depois de digitar muito, concluiu apenas uma palavra:
“Espere!
O que foi? Há algo que queira me dizer?
Bem, sim...
Diga logo, daqui a pouco terei de ir, minha amiga já está chegando!
É que...
Desculpe te apressar, é que fiquei curiosa. :-)
Eu te amo, Lucy Lewis”
E logo após mandar aquelas palavras, sentiu vontade de fazê-las retornar, de fazê-las inexistentes. “Mas que idiotice a minha! Eu disse mesmo que a amo?” segurou o celular com força, fechou os olhos e torceu para que não se decepcionasse.
Passado uns 7 segundos, Lucy enviou:
“Olhe para direta...”
E ao término da leitura, o garoto de cabelos negros sentiu um súbito toque no ombro, que desencadeou num calafrio quase ininterrupto.
- Não... – saltou dos lábios de Andrew.
Ergueu os olhos, deparou-se com as mãos delicadamente brancas, correu a visão ate o rosto do individuo que o tocara, e nunca se confundiria em questão da plenitude das madeixas negras, interrompida apenas pela mecha rosa, excêntrica e atraente.
Capitulo 2:
Chegando em casa antes do entardecer, um Andrew pálido seguiu direto ao quarto, pegou o telefone e ligou para Matt.
- Alô! – exclamou com respiração quase “epifânica”.
- Alô... Andrew? – disse Matt.
- Preciso que venha aqui, por favor.
- Ahn... Não estou disposto. Talvez eu passe aí amanhã.
- Não, tem de ser agora!
- Você não manda em mim. Sabe o que acho? Que você deveria ir à merda em vez de dar ordens; ate nunca mais!
“E lá vai ele. Surto de bipolaridade logo agora?” queixou-se o White, mas se aclarou com uma ideia óbvia entes que o primo cortasse a ligação, pondo-a em prática:
- Não, espere!... Eu faço batatas fritas pra você, com muito sal.
- Com acompanhamento dos meus três molhos favoritos? – ouvia-se através do fone o tom vocal do Matt se animar.
- Mas é claro! Molho barbecue, molho tártaro e molho shoyo.
- Estou indo!
Andrew chegou a sorrir quando ouviu a corrida do adolescente do outro lado do telefone.
oOo
Passou-se algum tempo, e na sacada de seu quarto Andrew fitava o mundo lá fora, porém, sem pensar nem por um momento no âmbito que se estendia a sua frente. A porta se abriu, era Matt.
O White se virou para ponderá-lo e percebeu de primeira que o humor de Matt mudara drasticamente desde a ligação, estava consternado.
- Andrew...
- Suas batatas estão na escrivaninha e do lado tem os... – o adolescente de madeixas absolutamente negras arregalou os olhos, pois seu primo o abraçava forte de modo repentino, mesmo sabendo que tal atitude tinha alta probabilidade de ocorrer, (tendo em vista a face tristonha de Matt e seu precedente de atitudes exasperadas) ele assim mesmo se surpreendeu pelo fato de sentir-se confortado em braços amigos.
- Primo... Me desculpe, fui um grande tolo em te tratar daquele jeito no telefone – falava em meio as lágrimas.
- Não foi nada, não há motivo para se preocupar com aquilo. Eu já estou acostumado com seu transtorno bipolar e tal... Mas enfim, te chamei para contar o que aconteceu comigo hoje na praça, quando fui levar a Zoe no playground.
O garoto de cabelos acaju sentou na cadeira da escrivaninha, tomou o prato de batatas com a mão e começou a comilança, e depois disse:
- Vamos, prossiga!
- É sobre a Lucy...
- Ah sim, sua paixão platônica. Mas enfim, continue.
- Começou quando recebi uma notificação no celular...
- Só mais uma coisa! – interrompeu-o. – quando for fritar batatas as frite numa temperatura menor, se aquecê-las rápido demais torna o interior muito inconsistente.
- Está dizendo que as batatas que fiz estão ruins?
- Sim, mas o sal está em ótima quantidade, se serve de consolo.
- Tá, tá, tá... Agora me deixe contar.
Contou grande parte da história que se desenrolara na praça, depois mergulhou num silêncio demorado, que foi quebrado por Matt:
- E então, o que aconteceu depois? A pessoa ao seu lado tocou seu ombro, você dirigiu a visão a ela, viu as madeixas negras e a excêntrica mecha rosa e logo notou que era Lucy ao seu lado... E veio o que depois disso, fale!
- Então gaguejei “Ai meu Deus” num sussurro quase inaudível. Ela sorriu
O crepúsculo da noite desceu de modo a extirpar a luz de um dia deleitável, como quando tinta preta é jorrada sobre uma folha branca de sulfite, perscrutando sua integridade harmônica. Mas o estranho não era a mudança relativamente brusca do tempo, mas sim o que Andrew fitava com estranheza; a porta de sua casa se apresentava escancarada e de trincos contorcidos, feito uma cena de invasão criminosa. Naquele instante, o garoto limitou seus pensares e pré-conceitos, apenas seguiu rápido para dentro de casa, dando de frente com a sala de estar.
Ao entrar, as batidas de seu coração aceleraram de forma a ser ouvidas exteriormente, seu corpo lhe pareceu exponenciar o frio. Seus lábios se distanciaram, a boca se abria buscando incessantemente o oxigênio que de repente lhe faltou. Os olhos representavam o medo tornado real, um temor já ocorrido, fazendo desse, uma dor do momento presente e uma dor do momento passado, nostalgicamente corrosivo...
Dois corpos se acomodavam na lateral da escadaria, parecendo bonecas de pano esquecidas; sentada, uma moça adulta, cabelos curtos repicados, abraçava uma garota de apenas sete anos de idade, sobre seu colo; ambas aparentavam a frieza de um corpo morto... Eram elas Elizabeth e, zoe, sua mãe e irmãzinha. O sangue delineava um circulo vermelho perfeito no chão ao redor das duas e manchava suas roupas.
- Não, não, não!... – deixando que as lágrimas brotassem nos olhos o White berrou diversas vezes. Gritos feito aqueles não foram ressoados desde a morte de seu pai.
O mesmo enterrou as mãos no cabelo, não aceitava aquela realidade perturbadora. E mais do que no instante em que enveredou sob a casa, naquela hora não desejava pensar no terror que estava vendo.
Mas antes mesmo de efetuar algum movimento abrupto, som de passos calculadamente lentos no assoalho da escadaria, ecoou por todo o recinto tomado pela penumbra do crepúsculo.
- Quem está aí?... – balbuciou o menino... Diminuindo gradativamente o ritmo da respiração, deixando ser dominado pelo medo. Ele temia que fosse um assaltante ou um assassino em série.
Um assovio característico, um som que oscilava de picos altos a baixos, numa frequência acelerada se propagava por todo o local. Ele já havia ouvido aquilo em algum outro lugar, se mostrava tão familiar... “Sim! Josh...” refletiu o garoto, mas logo descartou a hipótese, pois lhe parecia ridícula demais.
- Ora, ora, ora, se não é Andrew White – disse a voz familiar, durante sua lenta descida na escadaria. – Uma vez me disseram que os Humanos se tornam instáveis na presença da carnificina de um semelhante... – o indivíduo estacou a caminhada no meio do percurso, ao meio da escadaria, acomodou a mão direita sobre o corrimão e só então terminou o discurso: - especialmente quando os mortos são de sua própria família. Mas e você, concorda com essa teoria?
Os lábios do jovem White tremiam e os olhos perplexos não piscavam nem por um milésimo de segundo sequer. Os dedos se enrijeceram igualmente ao restante de seu corpo, ele não tinha mais poder sobre os músculos. Mas também não conseguia olhar o rosto da figura na escadaria, o próprio utilizava uma jaqueta de moletom, do qual o capuz sobre a face obstruía a visão e tornava o vislumbre de seu rosto impossível.
- O-o que você fez com a minha mãe e minha irmã? – indagou, enquanto as lágrimas ininterruptas não cessavam. E mesmo que cessassem, seriam lágrimas eternas a inundar seu interior.
- Não parece óbvio? Eu as matei, jovem White. Atirei no diafragma das duas... Ainda me lembro das desesperadas palavras da senhora White: ”por favor, não me mate. Meus filhos precisam de mim! Me escute, pelo amor de De...” e então acabei com a angustia dela e depois a da pequena, suponho que a ultima palavra que ela diria fosse: “Deus” mas eu a calei, pois ele não existe aqui e agora. Há-há-há-há! – a figura gargalhava feito louco, se divertia ao fazer o mau.
- Eu não posso acreditar... Quem é você? – o jovem estudante sibilou baixo.
- Oh! Deve estar mesmo ansioso para descobrir quem sou... Pois então, que vislumbre... – falava alto enquanto gesticulava com os braços, como se apresentasse um espetáculo extraordinário, saboreando um divertimento próprio; então tirou o capuz do rosto, revelando a face oculta.
- Josh... Josh Turner. Não entendo, não entendo nada disso! Como pôde? O que está havendo aqui?! –perguntava o jovem, se precipitando a arranhar os próprios braços, tentando, de forma física, acorda-lo daquela realidade aterradora... Mas não era possível, pois era tudo real.
- Sim, esse é o nome do ser que habita este corpo humano imundo. – dizia enquanto abria e fechava a mão direita enfrente aos olhos, ponderando o funcionamento do corpo.
- Por que fez isso?...
- Vejo agora que realmente os humanos se tornam voláteis em cenários como este. Sabe, no meu mundo, a raça inteligente dominante seria o que chamam aqui de: “insidiosos, malignos ou sem coração”, não tememos nada, pois o medo é apenas um sentimento redundante, que nos faz fraco, essencialmente dispensável e ilógico, afinal, o que seria da nossa raça, os titulados: “Grito da Guerra”, residindo o medo em nossos corações?... Porém, os humanos são primitivos demais para exilar esse sentimento avulso e, portanto, o medo faz da nação humana, seres de atitudes incertas. E sua atitude errônea, Andrew, fora se render ao temor, porque, além de tudo, você é covarde demais, como sempre foi; e hoje você representa seu maior feito, a hesitação, a incerteza, a insegurança, o receio... E tudo isso o levará a derrota! – ao pronunciar a ultima palavra, o mesmo fitou profundamente os olhos do garoto acuado, dando ênfase a própria.
As pernas bambearam e Andrew se ajoelhou perante tanta perturbação. Os olhos transpareciam uma loucura mórbida, longe da personalidade do garoto sensato de antes.
- Vê criança? – indagou a figura de Josh. – você possui medo, mesmo vendo os corpos sem vida de sua família, continua acuado em seu canto, pois teme que eu o mate, mas não está errado em questão a isso! Não, não, não... Talvez você não precise ter conhecimento do que anda acontecendo por estas instâncias estelares, já existem empecilhos demais me rondando. Não entendo bem, mas você é um dos problemas que devo exterminar.
- Cale-se! Seu maldito!... Não posso deixar que faça o que quiser, você rasgou minha vida no momento em que assassinou essas pessoas! Mas...
- Mas? – o interrompeu. – irá fazer o que? Chorar? Gritar? Espernear?... Receio que não adiantará de nada. Mas saiba que, no dia em que sua família foi morta, este, você não tentou nada, apenas se isolou em seu medo egoísta, não se moveu para vinga-los! – as palavras tinham papel de estacas a perfurar fundo sua mente, alcançando suas fraquezas nunca antes expostas daquela forma e, o pior era ver que as palavras eram gritadas por lábios sorridentemente demoníacos.
O ser com o semblante de Josh sorriu maliciosamente, como fazia sempre o verdadeiro garoto caucasiano. Sacou uma pistola 380 com silenciador, desceu os degraus que faltavam para chegar ao chão, destravou a arma, num ato de erguê-la na direção do menino tremulo, e o resquício de luz deixado pelo pôr do sol, refletiu cintilante no metal cromado da pistola.
- Vamos terminar com isso, para que se junte a sua desprezível família humana.
“E termina assim?... Minha família morre e eu permaneço como um covarde sem atitude! Isso não é correto! Eu devia vingar as pessoas importantes que foram assassinadas. Não compreendo nada do que aconteceu aqui, mas parece real e, esta realidade me assusta... No fim, morrerei com o legado de covarde passivo... Mãe, pai, Zoe, me desculpem...” matutou o garoto, antes que Josh puxasse o gatilho.
O gatilho foi pressionado...